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Em Nome do Viver Criativo
Entorpecida pelas fortes sensações resultantes da experiência de contato com as obras de Damien Hirst que estão expostas na exposição “Em Nome dos Artistas“, convido-os a refletir sobre como a arte contemporânea pode inspirar você a adotar um viver criativo.
Para celebrar os 60 anos de vida da Bienal, a exposição Em Nome dos Artistas apresenta uma coleção obras de artistas contemporâneos norte-americanos. Mas cabe ao britânico Damien Hirst ocupar o primeiro espaço do circuito de visitação, abrindo a exposição e impactando os visitantes com o seu tom polêmico.

Eternizando o laço mãe e filho através da interrupção do processo natural de decomposição da morte (obra “Mãe e filho divididos” – foto ao lado); utilizando literalmente a exposição da morte para eternizar a beleza da vida (obra “Elogio“); questionando a origem da vida (obra “Adão e Eva Expostos“); apontando 12 caixas de remédios como os apóstolos religiosos da atualidade (obra “Santa Ceia“); denunciando a inevitável finitude do corpo através de uma caveira humana em prata fundida e pátina negra (obra “Nova religião – o destino do homem“); ou utilizando-se de centenas de moscas mortas para representar uma doença letal (obra “Leucemia“). — Através de suas obras, Hirst constantemente denuncia a vulnerabilidade da vida.
Para quem não conhece o artista, transcrevo aqui a uma descrição feita pelo pessoal da Bienal:
"Polêmicos e cruéis, os trabalhos de Damien Hirst atuam como uma montanha-russa de sensações: ora seduzem, ora repelem o nosso olhar. Algo de fantástico e assustador nos coloca em estado de inquietação e desconforto. Temos a escolha de tapar os olhos, mas somos fisgados por um forte apelo visual. Numa atitude expremamente pessimista e ambígua, o artista discute temas ligados à morte, à impermanência, às relações, banalizando as grandes certezas da humanidade postuladas pela ciência, cultura popular e religião.“
Desconstruindo algumas das ilusões que movem a economia da vida contemporânea como, por exemplo, ”a beleza eterna a qualquer custo” e “a crença no poder da ciência para curar qualquer doença”, Hirst remete o visitante a um estado de desamparo em que a ausência do conforto oferecido pela “certeza” em referenciais básicos angustia o sujeito, convocando-o a mobilizar-se na reconstrução de novos.
Não seria exatamente esta a oportunidade de resgatar e desenvolver o processo do viver criativo?
Segundo o psicanalista Donald Winnicott no decorrer de toda a sua vida, o homem atravessa um processo de amadurecimento emocional, em que sai da “dependência total” da relação mãe-bebê para um “estado de autonomia”. Este processo é realizado através do uso de um espaço potencial que permita experimentações de viver e de separação, sustentadas por um elemento essencial: a confiança.
Confiança essencialmente no laço amoroso existente na relação entre o próprio sujeito e a pessoa de quem é dependente (ou nas relações atualizadas do laço original “mãe-bebê”).
Com base nesta confiança é possível, durante a experiência de separação, brincar com as diversas possibilidades de criar algo ali, onde nada existia. O resultado do exercício contínuo deste processo é, além do amadurecimento do estado de autonomia, o desenvolvimento do viver criativo.
Apesar de apresentar tão resumidamente o conceito de amadurecimento de Winnicott, gosto de pensar na interlocução entre a desconstrução de “certezas” provocada pela arte de Damien Hirst, com as possibilidades de um viver criativo resultantes da autonomia e do processo de amadurecimento emocional proposto por Winnicott.
A propósito, discutir pessoalmente sobre esta interlocução é o objetivo principal da visita lúdica do Projeto Instigar na exposição “Em Nome dos Artistas”, programada para sexta feira, dia 7/Outubro às 10:30hs. Se você quer vivenciar esta oportunidade de discussão e reconstrução, junte-se ao grupo!
Se a arte contemporânea impacta o que somos hoje, questionando e provocando a desconstrução de algumas das “certezas” que sustentam o viver contemporâneo, cabe a nós reconstruir novos significados através do viver criativo.
Cuide-se!
Débora Andrade, psicanalista