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Esperança como Princípio
Anos atrás participei de um curso de psicanálise cujo tema central era “A Esperança como Princípio”. Resumidamente, discutiu-se a respeito de diferentes dimensões da esperança.
O primeiro tipo de esperança apontado, muito primitivo, tem a ver com a nostalgia... Esperança dita como nostálgica – ou regressiva – tem como objetivo voltar a uma situação anterior de plena satisfação idealizada.
Esperança de resgatar algo que, hoje – frente a sua ausência – se julga como algo ideal. Seja um relacionamento, um emprego, uma condição ou situação de vida, e que para facilitar o artigo, passo a chamar de “objeto de amor”. Um objeto que traz uma lembrança de experiência de plenitude. E por basear-se nesta ilusão de uma vivência de plenitude, tal objeto torna-se idealizado.
Uma vez idealizado, o inconsciente humano utiliza-se de defesas psíquicas projetando todos os maus aspectos deste objeto de amor para fora dele, atingindo assim o ingênuo objetivo de mantê-lo “imaculado”. Porém, o “lado B” não desaparece... estes maus aspectos expatriados da sua origem projetam-se do psiquismo como sendo medos de “ameaças externas”.
O humor fica então alternando, como um pêndulo, entre a esperança de resgatar este objeto de amor e, na outra extremidade o medo intenso de que este objeto de amor seja danificado, constituído como uma espécie de terror. Sendo a desesperança exatamente o que ocorre neste momento de terror.
Esta é uma esperança que busca agarrar-se em garantias... E, por mais contraditório que possa parecer, é uma esperança debilitante. Debilitante porque, nos dois casos extremos, há uma perda de contato com o objeto real.
Afinal, é o mesmo objeto quem faz tanto o papel de sedutor como o de ameaçador. A ameaça vem do risco do objeto não ser alcançado, ou muito pior, ao ser finalmente alcançado o objeto deixar de ser idealizado, uma vez que as ilusões de perfeição em relação a ele serão inevitavelmente quebradas em função do teste de realidade...
Já o segundo tipo, é a esperança como princípio.
O fundamental para a esperança como princípio, é ter a capacidade de articulação da ausência e da presença do objeto. E aqui não falo mais de objeto idealizado, mas simplesmente de objeto desejado. Esta capacidade de articulação envolve tolerância à frustração. Que é algo que iniciamos a exercitar ainda quando bebês, com a alternância da presença e da ausência do nosso primeiro objeto de amor: a mãe.
Integrar os aspectos positivos e negativos do mesmo objeto é um caminho importante nesta sequência. Fazendo emergir um outro tipo de esperança, não necessariamente sustentada sobre ilusões, mas que tolera bons e maus aspectos do mesmo objeto. Este sim, é um tipo de esperança madura, pois possui capacidade reparadora aos danos causados pelos maus aspectos do objeto desejado, embutindo assim gratidão e perdão.
Uma outra dimensão seria a esperança que se liga ao processo identificatório. Desenvolver a habilidade de projetar para si metas, modelos, e ideais a serem perseguidos. Porém ideais realistas, completamente desprovidos de idealizações ingênuas. Em uma espécie de: “não sou, mas posso vir a conseguir”...
Mas isto pressupõe experiências bem sucedidas de elaboração de luto – sendo luto aqui não simplesmente como a morte de uma pessoa querida, mas como perdas em geral. Vivenciar este processo de luto envolve a capacidade de suportar a dor da perda, reconhecer o inevitável desta dor, e a capacidade de minimamente, com o tempo, reduzir a dor relacionada a esta perda – ou desapegar-se psiquicamente.
Hanna Segal introduz o que vai além da reparação proporcional. Fala de reparação criativa – aquilo que move o criador – que vai na direção de uma esperança de oferecer ao mundo algo melhor do que dele se recebeu. É uma modalidade intensa de esperança, onde há uma projeção para o futuro de algo que, a rigor, nunca existiu no passado.
É viver criativamente ! É a esperança como aposta !
Por mais criativa que possa ser a imaginação humana, nunca poderá chegar sequer próxima da real experiência de permanecer por mais de dois meses confinado em uma mina, a mais de 700 metros de profundidade, no meio do deserto do Atacama. E por isto mesmo, não faz sentido perguntar a você qual teria sido a dimensão de esperança que você teria usado neste tipo de situação...
Então prefiro questionar: qual a dimensão da esperança que você usa no seu dia a dia?
Cuide-se!
Débora Andrade, psicanalista