Seizu era um jovem que nascera com muitos talentos. Tinha sido um jovem desenhista, jovem músico, jovem pintor, jovem artesão. Tudo ele aprendia com muita facilidade e assim todos se encantavam com sua promissora arte. "Será um grande artista em várias artes", era o que Seizu mais ouvia. Seus pais, familiares e amigos sentiam orgulho. E ele, mais que todos, sentia muito orgulho de si mesmo. Aos poucos foi juntando ao seu talento vaidade e arrogância, e assim iniciou seu longo caminho.
Porém, se tinha tanto talento, tinha muitos defeitos. O maior deles era achar que tudo seria fácil em sua vida. Achava que o universo lhe daria tudo. Como fazia tudo com facilidade não aprendeu a vencer as dificuldades. Assim que encontrava o primeiro obstáculo não tinha energia e determinação para vencê-lo. Achava mais fácil mudar de atividade. Teve sucesso em música, pintura, uma boa profissão de desenhista, bons empregos e ótimas oportunidades. Mas sempre encontrava obstáculos que não sabia ultrapassar.
Era como subir uma montanha por vários caminhos: quando estava quase atingindo o cume ou mesmo chegava a alcançá-lo, tropeçava, escorregava, rolava e caía montanha abaixo maldizendo o caminho escolhido. Triste e abatido começava outro; enquanto era fácil percorria com alegria e determinação, porém, na primeira dificuldade caía de novo.
E assim o tempo foi passando e Seizu se tornando apenas um veterano talentoso procurando seu caminho; o que ficava cada vez mais difícil, pois ele não conseguia aprender a subir. Foi se conformando em rodear a montanha pela base, indo de um lugar para outro, às vezes desanimado, às vezes desesperado.
Um dia à beira de um despenhadeiro pensou em cair pela última vez, cansado que estava, mas ficou sentado apenas para contemplar o sol que nascia do outro lado. Foi quando viu um reflexo ao longe, alguma coisa iluminada pelo sol atraiu sua atenção. Levantou-se curioso e decidiu ir ver o que era. Foi andando na direção daquela luz que aos poucos mostrava o telhado de um Templo Zen Budista cercado por belo jardim. Quando lá chegou, depois de boa caminhada, foi recebido com muito carinho pelos monges que lhe ofereceram água, chá e bolo. Conviveu algum tempo com eles, assistindo palestras e fazendo Zazen. Ás vezes se afastava, mas sempre lá voltava.
Aos poucos foi percebendo que os monges sabiam como subir a montanha.
Procurou um deles e perguntou:
- Sensei, por favor, como posso subir a montanha sem cair?
- Sem cair você não conseguirá subir a montanha.
- Então o que faço quando cair?
- Caia sete vezes, levante oito vezes! 1
Seizu ajeitou a mochila que carregava nas costas argumentando ainda que cair era muito ruim, machucava não só o corpo, mas também o ego, a vaidade, o orgulho, o amor próprio e continuou seu lamento. O monge interrompeu bruscamente e com um olhar fulminante advertiu:
- Tudo isso são pedras que você carrega nas costas, podem até ser brilhantes e bonitas, mas fazem com que você caia e não consiga levantar. Jogue tudo isso fora!
Seizu conseguiu se desfazer de algumas delas e continuou sua caminhada. Ao passar pelo jardim do Templo encontrou alguns jovens treinando arte marcial. Saltavam e rolavam tocando levemente o solo com tanta habilidade e leveza que pareciam voar. Ficou um bom tempo olhando admirado.
Uma jovem se dirigiu a ele:
- Posso lhe ajudar?
- Sim. O que vocês estão fazendo?
- Estamos praticando aikido. Estamos treinando cair e levantar.
- Como isso é possível?
- Ao cair você se harmoniza com a força que o derruba, com o solo e com seu próprio equilíbrio e se levanta.
- Ah! E então eu posso aprender a cair e levantar e assim poder subir finalmente a montanha de volta?
- Sim, você pode fazer tudo que quiser, mas tem que começar aprendendo a cair. Você quer experimentar? Podemos lhe ajudar.
Seizu se propôs a aprender uma nova arte, desta vez com muita dificuldade. Mas como estava entre amigos e mestres pacientes e dedicados sentiu-se entusiasmado e determinado a aprender. Assim recomeçou sua caminhada novamente, ouvindo sempre a voz do monge:
- Hei, não esqueça de jogar fora suas pedras!