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Coluna do leitor instigado

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Floresta de amores passados

            Autor: Marcelo Montenegro

Floresta de amores passados

E eram Mulheres

Que transformaram-se em árvores sem folha

Nesta minha, ainda, floresta de lembranças

Às vezes o vento presente

Me mostra sua planície sem vida

De árvores secas que já distam muito

Das sementes que as originou

A tentativa inútil de muitas vezes

Inspirar o inodoro

Insinua uma provável incompetência

Vividas em um passado que entra em metamorfose

A cada visita minha

O Presente, sempre generoso

Solta minha alma

Me olhando profundamente nos olhos

Permitindo-me voltar

Ele sabe

Já não lhe dou mais tanto trabalho

De retornar aos pedaços

Exigindo que me costure de novo

Então, na medida em que encolho

Chego bem perto

Até sentir de perto os galhos

Que chegam a riscar a minha carne

Por dentro

Me ocorre minha postura

Curva

Esboço um leve sorriso de canto de boca

Sei que posso voltar

Deste lugar que já me feriu profundamente

Sobrevôo mais um pouco

Com a certeza de que seria impossível

Receber a semente futura que o Presente anuncia

Sem sobrevoar com lucidez

Esta minha propriedade falida

Que o Pai Tempo esfarela em suas mãos

Lentamente.


Saudade da tua proximidade


            Autora: Patrícia Recski

                    Saudade da tua proximidade

da tua aproximação

do teu olhar concreto,

saudade de te ter por perto

Saudade do teu abraço

tão envolvente, quente

do teu toque delicado, ardente,

saudade de te sentir presente

Saudade da tua voz

do teu silêncio que grita!

e eu escuto

e não posso

Se ao menos uma vez pudesse...

posso?!


Seizu 

                Autor: Sérgio Gonçalves

Seizu era um jovem que nascera com muitos talentos. Tinha sido um jovem desenhista, jovem músico, jovem pintor, jovem artesão. Tudo ele aprendia com muita facilidade e assim todos se encantavam com sua promissora arte. "Será um grande artista em várias artes", era o que Seizu mais ouvia. Seus pais, familiares e amigos sentiam orgulho. E ele, mais que todos, sentia muito orgulho de si mesmo. Aos poucos foi juntando ao seu talento vaidade e arrogância, e assim iniciou seu longo caminho.

Porém, se tinha tanto talento, tinha muitos defeitos. O maior deles era achar que tudo seria fácil em sua vida. Achava que o universo lhe daria tudo. Como fazia tudo com facilidade não aprendeu a vencer as dificuldades. Assim que encontrava o primeiro obstáculo não tinha energia e determinação para vencê-lo. Achava mais fácil mudar de atividade. Teve sucesso em música, pintura, uma boa profissão de desenhista, bons empregos e ótimas oportunidades. Mas sempre encontrava obstáculos que não sabia ultrapassar.

Era como subir uma montanha por vários caminhos: quando estava quase atingindo o cume ou mesmo chegava a alcançá-lo, tropeçava, escorregava, rolava e caía montanha abaixo maldizendo o caminho escolhido. Triste e abatido começava outro; enquanto era fácil percorria com alegria e determinação, porém, na primeira dificuldade caía de novo.

E assim o tempo foi passando e Seizu se tornando apenas um veterano talentoso procurando seu caminho; o que ficava cada vez mais difícil, pois ele não conseguia aprender a subir. Foi se conformando em rodear a montanha pela base, indo de um lugar para outro, às vezes desanimado, às vezes desesperado.

Um dia à beira de um despenhadeiro pensou em cair pela última vez, cansado que estava, mas ficou sentado apenas para contemplar o sol que nascia do outro lado. Foi quando viu um reflexo ao longe, alguma coisa iluminada pelo sol atraiu sua atenção. Levantou-se curioso e decidiu ir ver o que era. Foi andando na direção daquela luz que aos poucos mostrava o telhado de um Templo Zen Budista cercado por belo jardim. Quando lá chegou, depois de boa caminhada, foi recebido com muito carinho pelos monges que lhe ofereceram água, chá e bolo. Conviveu algum tempo com eles, assistindo palestras e fazendo Zazen. Ás vezes se afastava, mas sempre lá voltava.

Aos poucos foi percebendo que os monges sabiam como subir a montanha.

Procurou um deles e perguntou:

- Sensei, por favor, como posso subir a montanha sem cair?

- Sem cair você não conseguirá subir a montanha.

- Então o que faço quando cair?

- Caia sete vezes, levante oito vezes! 1

Seizu ajeitou a mochila que carregava nas costas argumentando ainda que cair era muito ruim, machucava não só o corpo, mas também o ego, a vaidade, o orgulho, o amor próprio e continuou seu lamento. O monge interrompeu bruscamente e com um olhar fulminante advertiu:

- Tudo isso são pedras que você carrega nas costas, podem até ser brilhantes e bonitas, mas fazem com que você caia e não consiga levantar. Jogue tudo isso fora!

Seizu conseguiu se desfazer de algumas delas e continuou sua caminhada. Ao passar pelo jardim do Templo encontrou alguns jovens treinando arte marcial. Saltavam e rolavam tocando levemente o solo com tanta habilidade e leveza que pareciam voar. Ficou um bom tempo olhando admirado.

Uma jovem se dirigiu a ele:

- Posso lhe ajudar?

- Sim. O que vocês estão fazendo?

- Estamos praticando aikido. Estamos treinando cair e levantar.

- Como isso é possível?

- Ao cair você se harmoniza com a força que o derruba, com o solo e com seu próprio equilíbrio e se levanta.

- Ah! E então eu posso aprender a cair e levantar e assim poder subir finalmente a montanha de volta?

- Sim, você pode fazer tudo que quiser, mas tem que começar aprendendo a cair. Você quer experimentar? Podemos lhe ajudar.

Seizu se propôs a aprender uma nova arte, desta vez com muita dificuldade. Mas como estava entre amigos e mestres pacientes e dedicados sentiu-se entusiasmado e determinado a aprender. Assim recomeçou sua caminhada novamente, ouvindo sempre a voz do monge:

- Hei, não esqueça de jogar fora suas pedras!


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